Eu lembro de quebrar um espelho com os pés...
Naquela manhã, eu, por alguma razão não ia à escola. Na verdade quando essas lembranças me vem eu não consigo precisar muito a data exata; o que aumenta a possibilidade de eu nem ter entrado na escola ainda quando deste fato. Meu pai se arrumava para sair de frente para a penteadeira e eu navegava pelo quarto, imaginando algum ambiente alheio aquele.
Uma coisa que era o máximo pra mim, era quando meu pai tinha um fusca e me deixava ir até a esquina de casa em pé naquele solado preto lateral que todo fusca tem... Ia até a esquina e depois voltava andando... ele seguia em frente, para o trabalho!
Voltando ao quarto.
Enquanto meus pais, distraídos, cuidavam dos afazeres matinais eu viajava pesado num espelho de rosto, daqueles de moldura laranja que até hoje persistem por ai. Adorava aquele espelho! Gostava de andar segurando ele à minha frente... coisa de criança.
Acontece que nesse dia, num momento de distração paterna, eu peguei o pai daquele espelho, o grandão; com a mesma moldura laranja e comecei a andar pela casa com ele, criando ângulos loucos pra cima e pra baixo.
Ora, se eu já estava quase dentro dele por que não entrar não é? Coloquei cuidadosamente o espelho no chão, analisei a trajetória e não pensei duas vezes – de um pulo, me atirei com os dois pés no espelho.
A dor foi menor que a decepção, até porque pouco me lembro do desfecho, ainda que as palmadas que levei estejam frescas na minha memória.
Eu costumava procurar caminhos de fuga do mundo real. Desde muito, muito pequeno. Desarrumava todo o quarto em busca de passagens secretas, vivia embaixo da cama esperando alguma porta abrir. Quando tentava racionalizar, refletindo que, se o quarto era meu e nós éramos os primeiros e únicos moradores do apartamento, não havia condições de haver ali qualquer passagem ou porta secreta, logo afastava aquela heresia da mente e continuava minha busca incessante.
Não entrei no espelho. Anos depois, ao assistir pela primeira vez Alice no País das Maravilhas me identifiquei com Caroll de forma imediata! Sei o que ele sentiu ao conceber aquela história!
Hoje, livre do que me levava à outra realidade, ainda guardo meus contos completos de Murilo Rubião, meus livros de Borges e o capítulo do delírio de Brás Cubas quase de cor. Consciente do reino espiritual, também imagino um pouco além do que os olhos enxergam.
Não me impressiono mais com espelhos. Não acredito em azar.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
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