quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Muribeca...

Em 1755, Antônio Moraes da Silva, autor do primeiro dicionário brasileiro morava na Muribeca. Etimologicamente, Muribeca significa "mosca inoportuna"...
Em 1981, eu nasci e recém vindo do Ibura, fui morar na Muribeca.
Eu lembro que esse lugar construía imagens diárias na minha mente. Imprimia fatos, e lembranças indeléveis (que não se podem apagar). Vamos à elas...
Eu fazia 1ª ou 2ª série e o ônibus do Sandra Maria passava na rua principal do bairro pra buscar os estudantes que por ele esperavam. O motorista chamava Célio e era um cara enorme e resmungão que tinha uma voz rasgada e falava muito alto. A assistente dele chamava Carmelita e gritava com todo mundo! Enquanto eu esperava o ônibus, do outro lado da rua, um cara com um bigodinho Hitler sentava num banco pra descansar e quem sabe olhar o movimento. Acontece que eu, sabe-se lá porque, nutria um medo secreto daquele homem, como se ele fosse me sequestrar ou atacar à qualquer momento. Esse desespero diário me consumia e, como não podia explicar a ninguém o que acontecia, engolia seco.
Na escola Karina Costa Dias era minha paquerinha pra quem eu comprava chicletes dos trapalhões naquele tempo 15 centavos de dinheiro.
Eu lembro da única vez que eu comi na escola comprando comida na cantina, meu pai foi lá me buscar e pagou o lanche. Essa lembrança me traz um sorriso de nostalgia...
Mas sim, e Muribeca?
Muribeca eram minhas tardes, de perambular fazendo nada na rua, passeando pelos "pleitaimes" proibidos pela minha mãe.
Eu tinha um amigo que tinha um video gueime e saíamos à caça de outros que tivessem jogos para trocar... Passei tardes inteiras jogando Master e Mega...
Muribeca era o destino quando, já com 12 anos, eu voltava da escola dentro do ônibus (sempre do lado do sol, porque os lugares na sombra ocupavam-se rápido) contando os carros do mesmo modelo todo o caminho para chegar logo. Eu constumava fechar os olhos e distinguir entre o preto da sombra e o vermelho cáustico do sol.
Muribeca eram partidas intermináveis de War, campeonatos de futebol de botão, passeios bate-e-volta do começo até o fim da vila.
Depois, Muribeca virou um estorvo, um empecilho pra conseguir carona de volta do Recife Antigo... Ninguém passava por Muribeca na volta pra casa, a não ser que morasse no Cabo ou em Porto de Galinhas!!!
Muribeca foram poucos casinhos de adolescente e quase nenhum amigo que dure até hoje.
Muribeca foi levar a minha hoje esposa pra conhecer a hoje sogra dela.
Muribeca foi aprender a escrever poesia com Miró (da Muribeca), foi passar na Escola Técnica, foi passar no Vestibular, foi voltar do Japão e chegar... em Muribeca!
Hoje, Muribeca desaba prédio a prédio. Minha mãe já decreta que vai se mudar. E eu daqui de longe, fico imaginando, assim meio aflito. Quando ela se mudar e eu viajar pra terrinha, quem eu vou usar como desculpa pra ver Muribeca? Pra lembrar dos ônibus, pleitaimes, vadiagens, casinhos, não-caronas, poesias e aquele cheiro insuportável que vem do lixão?
- Muribeca
- Aquela do lixão?
- Não! A do primeiro dicionário do Brasil!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Da internet e seus associados...

Ah, a internet.
Eu lembro quando ouvi falar a primeira vez disso...
Eu e quase ninguém tinha computador em casa, na escola e em nenhum lugar acessível...
Depois de um tempo, surgiu um amigo filho de pais abastados que ganhou um computador.
- É um 486! Com Windows 95 já! Vem aqui na minha casa pra ver...
E assim as tardes dos finais de semana nunca mais foram as mesmas. Agora podíamos ver ele jogando Duke Nukem 3D! Agora podíamos usar o mIrc...
O mIrc...
Vamos começar do começo.
A primeira tarefa era conectar à internet. Com linhas de telefone usando pulso ao invés de tom, tínhamos que discar, aguardar chamar três vezes e entre a terceira e a quarta apertar o Enter com o Hyper Terminal do Windows aberto. Com algumas dezenas de tentativas o barulhinho característico e o modem Motorola de 9600 bps conectava.
Aí abríamos o mIrc e entrávamos num canal. Normalmente o #Recife. Como era fascinante entender que toda aquela gente era de verdade e desconhecida. Era como um desbravador aventureiro se ver em plena tumba de um faraó com centenas de jóias desconhecidas à sua frente.
E lá estávamos nós, três ou quatro amigos, sentados em frente a um monitor de tudo de 14 polegadas, imaginando histórias e palas inimagináveis para jogar em todos os nicks femininos que encontrássemos...
- oi
- oi
- tc de onde
- bv e vc?
- olinda
- legal
- legal
- qtos anos?
- 14 e vc?
- 15
- estuda onde?
- atual
- tem foto?
- naum
(...)
Vale ressaltar que naquele tempo só tinha foto no computador que era muuuuuito rico ou tinha acesso a um scanner no trabalho de um conhecido.
Era o fim de semana inteiro disso! Chegamos a conhecer algumas dessas pessoas, é verdade, mas devo dizer que pouco proveito real tiramos desse tempo. Era só conversa mole jogada fora e a possibilidade de ter um(a) desconhecido(a) dentro da sua própria casa sem precisar se preocupar.
Hoje a molecada ficou chata e metida. Sabem de tudo, opinam sobre tudo, com fontes diversas e alimentam boatos sem noção. Sempre acham que o seu é melhor, não importa do que se trate. Sentem prazer em humilhar e desconsiderar outros. A internet desvirtuou os adolescentes. Os adolescentes desvirtuaram a internet...
Estou ficando velho!
Lembrei!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Correr pra que?

Lembro de correr...
Eu corria sem querer chegar em canto nenhum. Pelo prazer de correr... Apostava corrida comigo mesmo ou às vezes com um carro que passava lento na pista. Síndrome de vira-lata talvez.
Corria para ir comprar o pão. Mas para comprar o pão, tomava banho antes e penteava o cabelo para o lado. Então correr, talvez fosse uma infração ao meu cheiro de sabonete. Iria suar!
Lembro que de ir comprar pão e ouvir pela primeira vez a nova música dos Paralamas - "Tentei te entender, você não soube explicar... Eu fiz questão de ir lá ver, não consegui enxergar..."
Nunca corri atrás de ônibus por vontade própria. Sempre achei que tinha um quê meio de determinismo. "Se o ônibus está indo embora, é porque não devo pegá-lo!". Acontece que isso não era levado em conta em dias de aula versus ônibus milagrosamente vazio saindo do ponto.
Quem corria muito eram os motoristas de Kombi indo pras bandas da Universidade. Aqueles sim.
Corri até aprender que não era por correr que eu chegava e sim por saber pra onde estava indo.
Hoje não corro mais. Calculo o tempo e vou andando. Ainda paro para curtir a paisagem!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Álcohol... Só para desinfetar!

A primeira vez que eu coloquei uma gota de álcool na boca foi em 1997, no finzinho.. Era vinho e eu tinha ido pra casa de uns amigos em Jardim Atlântico. Aquela sensação de euforia me conquistou de tal forma que eu meio que já sabia onde aquilo ia dar...
Curti cada momento.
Não posso dizer que a relação posterior foi só de amores, pois muito eu me perdi por causa do líquido 5% vol.
Depois da primeira experiência, o Recife Antigo é que amparava minhas ousadias. Àquele tempo, o lugar era point e toda a juventude recifense caía praquelas bandas (melhor falar da nonstop depois, merece um post inteiro...). Do vinho saltei para tequila e sempre indo de encontro ao mais forte para medir forças. Descobri a duras penas que aquele destilado mexicano enlouquece cidadãos desde o tempo do Zorro... E na única vez que eu fui na Fun House antes dela fechar, foi justamente a Tequila que me fez bailar como um mariachi sem violão!
Na Escola Técnica eu pouco bebi, é verdade; mas quando entrei na maioridade universitária, descontei todo o tempo perdido. Era o dique do laguinho o melhor lugar para acabar com 5 litros de carreteiro recitando poesias; afinal, era Letras o nosso curso!!! E Baco nos amparava!
Muitos vinhos depois, descobri que aquela desgraça me dava dor de cabeça! Parei geral! Decidi-me pela cerveja. Mais cara, porém menos ofensiva à flora intestinal, a loura me amolecia de tal forma que apenas a Cannabis mais tarde conseguiu superar.
Alguns casos curiosos vararam o tempo e permanecem na lembrança:
- Eu lembro de estar num feriadão em Itapoama e depois da segunda garrafa de Montilla (Diarréia industrializada) em conjunto com algumas cervejas, ser solicitado por meu grande amigo, dono da casa de praia, para, dirigindo o carro dele - um Kadet lindo e mais importante que tudo na vida do cara - ir no mercado local comprar mais birita e fazer a frente para todos. Não sei se foi a cachaça ou o amor de amigo que o fez entregar as chaves a mim - carteira de motorista recém-tirada - mas honrei o compromisso e fui buscar a alegria da moçada..
Ida e volta tranquilas, restava uma etapa simples e rápida: entrar com o carro no terreno cercado da casa de praia. Antes fosse uma cerca eletrificada, pois o maldito arame farpado parece que se jogou na porta do Kadet e o arranhou como dedo de criança em roda de velocípede. E eu vi o meu amigo, avançando contra mim como um velociraptor e querendo minha cabeça como uma tribo da Papua Nova Guiné quer a de um macaco.
Pouco lembro depois disso, alguns flashes me trazem os outros amigos apartando a muvuca e eu chorando em motes de "- prejudiquei meu amigo" agarrado a uma garrafa de Vodka.
Tantos outros incovenientes e micos o álcool me trouxe que daria para fazer um blog inteiro!
Só pra terminar...
Lembro da amnésia causada pela ingestão do dito cujo relativa a uma menina. Primeiro fui a um aniversário na minha tenra adolescência e, como antes havia tomado duas taças de caro vinho no jantar, estava quase embriagado. A amiga que me levou à festa me apresentou como artista e todos os etceteras da época e eu desapareci com minha primeira namorada, como fazem todos os primeiros namorados. Ao retornar, fui apresentado a uma bela garota, que por ser tão bela, gerou uma seleuma enorme com a primeira namorada em questão. Confesso que realmente olhei mais de três vezes para a apresentada e dei razão para o xilique...
Mais de 5 anos depois, já na universidade, eu bebia cana com mel num bar chamado "Bigode" e numa sexta-feira qualquer, tanto que encontrei conhecidos que acabei por ficar sozinho numa mesa com uma mulher belíssima e muito interessante com quem conversei despretensiosamente até notar que ela parecia nutrir uma prévia simpatia por mim. Sem (querer) entender o que estava acontecendo, escrevi um famigerado acróstico (foram anos de terapia pra parar com isso), mesmo tendo a menina em seu nome letras inusitadas como X, V e outras mais. Ela aceitou o agrado mas a conversa não perdurou muito, pois fui pegar mais combustível e quando voltei o cenário havia mudado!
Depois desses dois casos distintos - eu começava a acreditar em sorte - quando estava almoçando num restaurante da universidade e uma menina incrivelmente bonita passou e me lançou um sorriso. Não compreendi muito bem aquela manifestação pois não era acostumado a receber tais demonstrações de empatia tão gratuitamente assim. Por outras vezes encontrei-a em corredores e o mesmo sorriso acompanhava seus passos. Muito cogitei e me perturbei deveras por não entender o significado de tudo aquilo...
Tomei coragem e um dia, num desses acasos geográficos, sentado ao lado dela, perguntei seu nome e ela respondeu me tratando pelo meu...
Meu Deus! Terá ela procurando saber minha alcunha? Saberá dos meus vícios? meus segredos mais obscuros? Como sabia meu nome? Qual o que? (...)
Naturalmente como um colibri bate asas centenas de vezes por minuto, ela revelou que havia me conhecido há mais de 5 anos em um festa de aniversário, que tínhamos uma amiga em comum, que uma vez num bar, eu escrevera uma poesia pra ela... Naquele momento, ela parecia uma peça de quebra-cabeça se encaixando em todas as lembranças mencionadas e meu id me traía dizendo que "não podia ter sido bom como parecia naquele tempo".
Eu, que não sabia se ficava visivelmente envergonhado ou escondia tudo, atônito, desconversei e toquei mais uma música...
Mas a partir de então, estava decidido: Nunca mais beberia ao ponto de não me lembrar de coisas que, como aquelas, não se podem esquecer.
Vai saber o que aconteceria se eu tivesse pleno domínio dos meus atos?....
Ok, lembrei... Mas acho que vou tentar esquecer!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Espelhos

Eu lembro de quebrar um espelho com os pés...
Naquela manhã, eu, por alguma razão não ia à escola. Na verdade quando essas lembranças me vem eu não consigo precisar muito a data exata; o que aumenta a possibilidade de eu nem ter entrado na escola ainda quando deste fato. Meu pai se arrumava para sair de frente para a penteadeira e eu navegava pelo quarto, imaginando algum ambiente alheio aquele.
Uma coisa que era o máximo pra mim, era quando meu pai tinha um fusca e me deixava ir até a esquina de casa em pé naquele solado preto lateral que todo fusca tem... Ia até a esquina e depois voltava andando... ele seguia em frente, para o trabalho!
Voltando ao quarto.
Enquanto meus pais, distraídos, cuidavam dos afazeres matinais eu viajava pesado num espelho de rosto, daqueles de moldura laranja que até hoje persistem por ai. Adorava aquele espelho! Gostava de andar segurando ele à minha frente... coisa de criança.
Acontece que nesse dia, num momento de distração paterna, eu peguei o pai daquele espelho, o grandão; com a mesma moldura laranja e comecei a andar pela casa com ele, criando ângulos loucos pra cima e pra baixo.
Ora, se eu já estava quase dentro dele por que não entrar não é? Coloquei cuidadosamente o espelho no chão, analisei a trajetória e não pensei duas vezes – de um pulo, me atirei com os dois pés no espelho.
A dor foi menor que a decepção, até porque pouco me lembro do desfecho, ainda que as palmadas que levei estejam frescas na minha memória.
Eu costumava procurar caminhos de fuga do mundo real. Desde muito, muito pequeno. Desarrumava todo o quarto em busca de passagens secretas, vivia embaixo da cama esperando alguma porta abrir. Quando tentava racionalizar, refletindo que, se o quarto era meu e nós éramos os primeiros e únicos moradores do apartamento, não havia condições de haver ali qualquer passagem ou porta secreta, logo afastava aquela heresia da mente e continuava minha busca incessante.
Não entrei no espelho. Anos depois, ao assistir pela primeira vez Alice no País das Maravilhas me identifiquei com Caroll de forma imediata! Sei o que ele sentiu ao conceber aquela história!
Hoje, livre do que me levava à outra realidade, ainda guardo meus contos completos de Murilo Rubião, meus livros de Borges e o capítulo do delírio de Brás Cubas quase de cor. Consciente do reino espiritual, também imagino um pouco além do que os olhos enxergam.
Não me impressiono mais com espelhos. Não acredito em azar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Eu e as Garotas





Eu lembro das garotas...

Começou desavisado e inocente. Um dia, eu estava namorando, decidi fazer uma música pra minha então namorada. Ganhar mais uns pontos, quem sabe mais uns beijos etc. Muito esforço, muitas rimas pobres... saiu a canção! Fraca e capenga como tinha que ser. Afinal, o que esperar de um apanhado de frases românticas, exaltando um amor adolescente e pueril com rimas desgastadas (amor – dor, mais – traz)? – um sucesso da MTV! – não no meu caso...
Entitulei a canção com a inicial da parceira em questão, gravei numa fita TDK virgem e entreguei. Qual o quê! Frenesi! Êxtase! Saltinhos de satisfação! Aquilo me rendeu mais frutos do que eu imaginava! Eu era remetido em conversas familiares, reconhecido em grupinhos de amigas, ouvido em rodinhas de confidentes... Gostei desse desenrolar, não minto.
O namoro acabou, a música ficou! Comecei então a testar, agora com mais liberdade artística, meus recém dotes com outras donzelas que me aprazessem. O desfecho saiu pela culatra. Eu havia passado de galanteador-seresteiro à conquistador-barato (de quinta). Aquilo me doía! Não agarrava ninguém e não descolava senão um agradecimento tímido e fugidio. Parei com a produção. Não me levaria a canto nenhum.
Passei então a analisar cientificamente garotas e escrever sobre situações e/ou personalidades ideais delas e/ou com elas. Nada sexual, adiciono!
Era assim, alguma menina passava por mim, nada ligando, me tratando como os 90% dos meninos de estatura, físico e aparência mediana são tratados até demonstrarem (sendo o caso) ter algo que interesse a referida – indiferentemente. Naquele momento oportuno, eu fechava a minha bolha de tempo-espaço e guardava a imagem da passagem da dita cuja, num átimo na minha memória recente. Aquilo era a fagulha pro incêndio que meus neurônios alimentavam com suas sinapses semânticas, semióticas e viajadas. Em pouco tempo uma historia estava criada, a garota era a protagonista, havia algo que a identificava, algo que correspondia a ela na vida real (normalmente usado em alguma eventual apresentação da obra à que a inspirou) e minha notória presença como narrador-espectador-platônico.
Logo esta música era gravada em áudio precariamente e armazenada. Nenhum uso lhe era imputado. Não havia coragem. Alguma poucas composições surgiram nesta fase platônica.
Progredi então à fase ativa. Agora não só compunha e gravava as canções como também entregava (e saía correndo depois, é verdade) para ela que, sem saber, movia rapidamente as engrenagens criativas de alguém. Tive experiências interessantes nesta fase. Os garotos, que acompanhavam de perto todo o processo, me tinham por Don Juan das letras – presumidamente machista esta consideração!
A verdade, e não minto, é que não tinha lá tantas intenções reais de finalmentes com aquelas meninas. Eu queria a atenção de alguém especifico por curto período de tempo, como diria minha terapeuta anos depois, queria deixar minha marca. Não, não me arrependo disso! Imagino, como imaginava naquele tempo, o que deve(ria) significar para uma garota, sentir-se notada, ser alvo de uma tentativa de tradução. As sensíveis, espero, guardam até hoje tais registros! Não me lembro de, nesta fase ter de fato agarrado ninguém... ganhei amigas, fato!
Precisei de terapia! Cheguei a conclusões que só uma terapeuta pode sugerir – pai ausente, necessidade de atenção, complexo de Édipo, essas baboseiras pepsicológicas...
Parei com tudo isto! Mas antes de parar, produzi muito. Deixava sempre claro para as namoradas atuais (uma por vez, que fique claro! Nunca promíscuo!) que aquilo era arte e que o ato de entregar o trabalho, consistia em direito da garota de receber algo do qual ela fez parte, mesmo que indiretamente. Que fique claro, os artistas nunca esperaram compreensão de quem os acompanhava de perto - ciumeira louca!
E você que agora está me achando um cínico, pode, se conhecer alguém que recebeu alguma música composta por mim, perguntar sobre detalhes da entrega e desenrolar dos dias. Bato no peito e digo que não me recordo de ter agarrado ninguém com músicas! Talvez a memória falhe, mas não propositadamente. Ato falho! Não traí ninguém com músicas, isto garanto!
Hoje parei com isto. Casado, estabilizado, suprido de atenção. Não minto quando digo que ainda fraquejo e corro pro papel pra descrever um mundo alheio ao real, com uma personagem inventada por mim, sob a sombra de alguém de carne e osso. Evito entregar... manutenção de casamento. Quero minha esposa sempre feliz! Ela sim, foi bem treinada a reconhecer a arte nas composições, ainda que inspiradas em outrem.
Afinal de contas; apesar da marca, delével ou não, vão-se as personagens, fica a arte!

domingo, 12 de julho de 2009

Eu não sou Renato Russo! (A odisséia Musical - Parte 2)

Se você tem mais de 20 anos e estudou no CEFET/ETFPE ou conheceu alguém de lá, pode ter ouvido falar de um menino que cantava igual ao Renato Russo...
Eu lembro...
Depois da decisão de banir o intermediário e ir direto ao ponto (ou melhor, ao lago da Escola Técnica) assistir aula passou a ser algo cada vez mais secundário, descartável e enfadonho. Minha família começava a notar a defasagem. Daquele garoto-prodígio que recebia medalhas de melhor aluno durante todo o ano pouco sobrou. Em contrapartida, minha mãe e irmã agora tinham um novo despertador - eu acordava perto das 5 da manhã para praticar "Ainda é Cedo" à exaustão.
Comecei a levar o violão para a escola, na expectativa de poder desenvolver aquela verve artística de alguma forma. Acontece que a escola estava apinhada de tocadores eventuais que, por preguiça ou ônibus cheio, não se dispunham a trazer seus instrumentos e partiam como hienas para o primeiro novato com um violão que viam pela frente - Eu! Pobre coitado! Tocavam toda a manhã um repertório do mais variado - um dedilhava Geraldo Azevedo, outro vinha tocar uma peça de Violão Clássico do Henrique Pinto, aquele ali chegando vai tocar Iron Maiden (??!!), tem mais um que ama reggae... e eu? Bem, eu sentava ali à beira do laguinho e curtia manhãs ecléticas como ninguém.
Descobri em pouco tempo que um cara da minha sala tocava violão até que bem e sabia boa parte do repertório de Legião Urbana, só que cantava mal... Eu, cantor profissional de banheiro/pia-de-cozinha-lavando-prato enxerguei a oportunidade e me agarrei a ela. Primeira chance que tivemos, sentamos num banco da escola e discorremos por anos de carreira daquela banda de Brasília. Eu sabia cantar tudo, e o cara tocava tudo! Estava montada a dupla (e se desenhava o estigma que me seguiria por muito tempo!).
Sim, é verdade, aquela parceria começou a dar frutos. Eu, com 14 anos, estava definindo meu timbre vocal e barítono que sou comecei me encaminhar para o que, naquele tempo, era meu referencial de voz e interpretação - Renato Russo!
Em pouco tempo, éramos solicitados em rodas de violão, salas sem aula comemorando aniversários, encontros setoriais de cursos, festas de professores e toda a sorte de eventos que espalhavam cada vez mais nossa fama.
Eu me esmerava em incrementar a veracidade do meu personagem e passava horas escutando entrevistas da Legião com os dedos no Stop, Rew e Play para repetir, sempre que a entonação não fosse satisfatória. O parceiro debulhava a coleção de vinis da banda, aperfeiçoando cada acorde.
Dentro de menos de um ano nós havíamos nos tornado astros! Eu já cantava alto (beeem alto), dominando agudos e caprichando nos graves; enquanto meu amigo àquela altura já usava palheta para fazer o som do violão chegar mais longe. Na Escola Técnica, eu já era o Renato.
Aquilo me trazia louros dos mais diversos e reprovações das mais sofisticadas! Já conhecia um catálogo inteiro de meninas de diversos cursos, idades e gostos musicais (não pegava ninguém, mas conhecia...); já era notado pelos caras da minha idade e invejado por alguns; discriminado por professores, que me tinham por vadio (exceto Antônio Carlos Xavier que passava quieto, sacando tudo e depois me revelaria, já na universidade, que curtia dar aula de português com trilha sonora) e maquinava dentro de mim vôos mais altos.
Minha primeira banda se chamava AFronteira, continha o amigo do violão, um amigo dele e um baterista que eu nem lembro. Durou três ensaios! Mas voltando no ônibus lotado de 6 da tarde, depois daquele primeiro ensaio em Coqueiral (um buraco encrustado entre Areias, Totó, Jardim São Paulo e San Martin), descobri que havia algo que eu realmente queria pra mim - eu quero ser cantor!
Outras bandas vieram e reviravoltas inteiras ainda aconteceram, mas este relato específico quer tratar apenas daquele intervalo...
Eu lembro de ir ao Japão e quando pousei em Los Angeles, na primeira escala, um cara veio lá de trás do avião gritando:
-Ei! Eu te conheço! Tu é o Renato Russo da Escola Técnica!
Gente, Los Angeles é longe pra dedéu! Donde aquele cara surgiu???
Assim como ele, outros incontáveis soltavam esta de "Tu não é aquele cara que canta Renato Russo?".
Minha reação viajou um longo caminho desde "Sim, sou eu, quer que eu cante pra você ver" até "Não, você está me confundindo com alguém"; com escalas em "Esquece isso!" e "Não enche!"
Não, eu não sou o Renato Russo! Não, hoje eu não canto mais como o Renato Russo. Sim, eu sei imitar igualzinho, mas não quero! Que coisa!
Vejo o lado bom, decidi cantar e escrever por causa da influência do cara e namorei a menina mais bonita da escola por causa dele também. Ora, afinal não me tornei um adolescente com crise de estima (talvez algumas existênciais) por causa da minha relação com Legião!
De tudo o que eu cantei dele, algo ficou guardado e segui à risca:

"Ora, se você quiser se divertir, invente suas próprias canções"
Renato Russo - Marcianos Invadem a Terra.

Lembrei!

CENAS DAS PRÓXIMAS POSTAGENS:

- A poesia
- Músicas para meninas
- Desregrado
- O Japão